O novo especial de Natal do Porta dos Fundos, intitulado A Primeira Tentação de Cristo e disponível na Netflix, vem causando a ira de grupos religiosos e conservadores ao mostrar uma visão diferente, mundana e descontraída de personagens e passagens bíblicas.

A atração, que tem influência de Monty Python e é inspirada em outras produções do grupo, foi criticada pelo bispo da Diocese de Palmares (PE), Dom Henrique Soares da Costa, que recomendou a fiéis o cancelamento da assinatura da plataforma.

O especial também é alvo de várias petições online, com centenas de milhares de assinaturas, que pedem sua retirada do ar. O deputado federal Eduardo Bolsonaro engrossou o coro afirmando que o Porta dos Fundos ataca a fé de 86% da população brasileira.

Fábio Porchat, que escreveu o roteiro do especial e há anos defende a abordagem do grupo em relação a temas religiosos, ironizou as críticas em sua conta do Twitter e afirmou que se resolverá com Deus.

“Está de boa, não precisa se preocupar não. Agora pode voltar a se indignar com a desigualdade que destrói nosso país. Mas tem que se indignar com o mesmo fervor, está bem?”

Esta não é a primeira vez que o Porta dos Fundos provoca ira de grupos conservadores por suas sátiras bíblicas. Mas o que o novo especial tem de supostamente ofensivo para provocar tamanha reação? Veja abaixo o que vem sendo criticado e alimentando a polêmica.

AVISO: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS DO ESPECIAL A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO

Jesus é gay

Jesus é gay O especial cita o Evangelho de Lucas 4,1-13, que narra o início do ministério de Jesus movido pelo Espírito Santo, quando ele se recolhe em jejum de 40 dias no deserto e é tentado por Satanás. Na versão humorística do Porta, ele (Gregório Duvivier) decide passar esse tempo fora para “se encontrar”, como um mochileiro que viaja para o exterior com com intuito de “ter experiências”.

Lá, Jesus conhece e inicia um relacionamento com Orlando (Fábio Porchat), um jovem com aparência semelhante à de Roberto Leal no início de carreira, que se revela a representação do mal. Aqui, Jesus aparece como um jovem nada sacro: é inseguro, se masturba escondido, deseja o primo João Batista e tem notórios anseios hippies, além de ter dúvidas sobre sua capacidade para aceitar o chamado de Deus.. “Sou um cara do malabares, da miçanga, maracatu, salão de poesia”, explica ele.

 

Deus é mentiroso e forma triângulo amoroso

Deus é mentiroso e forma triângulo amoroso Durante quase todo o tempo o especial se passa na casa de José (Rafael Portugal) e Maria (Evelyn Castro), mostrada como um lar de uma família normal durante o Natal. Eles recebem Jesus após o exílio e, ao lado de Deus (Antonio Tabet), decidem contar que, na verdade, ele não é filho de José, mas do Todo Poderoso. Para a surpresa do filho, os três formam um triângulo amoroso.

Deus, aliás, é inteiramente despido de santidade: com humor estilo “tio do pavê”, ele é intempestivo, com rompantes de autoritarismo, e quer transar com Maria. Fica no ar, inclusive, a dúvida de que eles fizeram amor carnal para conceber Jesus. Onipresente, onisciente e onipotente, o personagem ainda manipula Jesus mentindo sobre seu trágico destino. Em uma das piadas, chamado de Deus é comparado a um esquema de pirâmide.

Deus (Tabet), com corte estilo samurai, tenta Maria (Evelyn Castro) Imagem: Reprodução

Três reis magos são interesseiros

Melchior (José Vicente de Castro), Balthazar (Robson Nunes) e Gaspar (Estevam Nabote) são Três Reis Magos festeiros e trapalhões, que retornam para o aniversário de 30 anos de Jesus, munidos apenas de flores como presente.  Eles se perdem no meio do caminho e estão sempre discutindo, por motivos banalmente diversos.

Também dão a entender que só estão ali pela festa —no caso, para beberem vinho. Eles se decepcionam quando percebem que só há água para beber no local, e, querendo animar o evento, Melchior contrata uma prostituta, Telma (Thati Lopes), que ele descreve como “amiga”.

José é “loser” e Maria, “badass”

José, que trabalha construindo móveis planejados, surge como uma figura tímida e cômica, que poucos respeitam por saberem que é alvo de traição. Jesus não o respeita e Maria não está muito aí para ele. O carpinteiro deixa clara sua rivalidade e inimizade com Deus, que tenta diversas vezes sua mulher, mais atraída pelo “amante celestial”.

Maria, por sinal, está longe do arquétipo de virgem abnegada. Ela é empoderada e quer ter prazer com Deus —mas sem que ninguém veja. Também enfrenta Orlando, o namorado do filho, quando ele a impede de entrar no quarto de Jesus, depois que ele toma um chá de glaucoma e começa a ter alucinações com “escolhidos” de outras religiões, que o convence a aceitar o chamado.